E não era com as próprias bocas que riam, mas com outras.

Odisseia, canto XX
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O outro jogo

  No conto "Ein Kampf", de Patrick Süskind, dois xadrezistas defrontam-se no parque perante o olhar atento de um conjunto de pessoas. Um dos jogadores, o mais jovem, é um desconhecido que atrai a curiosidade do público. Sem dizer ou fazer nada a não ser rolar o cigarro nos dedos e jogar, a sua serenidade, elegância e descontracção causam admiração nos espectadores. Algo de indefinível dá-lhe um magnetismo que deixa todos os outros seguros de que é um génio e vai sair vitorioso. O seu adversário – Jean –, pelo contrário, é conhecido dos presentes. Com cerca de setenta anos, provoca neles aversão, tanto pela aparência "medonha" como pelo facto de nunca ter sido derrotado. Todos estão seguros de que é chegada a hora. Mas a partida termina com a vitória de Jean, sem que ninguém tenha explicação clara sobre o que sucedeu. A verdade é que o estranho, que todos julgaram um génio, jogou como teria jogado um jogador muito fraco ou, pelo menos, muito inexperiente. A tal ponto que Jean – não fora a aura do desconhecido também o ter impressionado e o ter deixado ainda mais prudente –, em condições normais, teria acabado o jogo logo na primeira jogada, tal a inépcia do jovem. Mas depois da partida, quando volta sozinho para casa, Jean sente que nunca jogou tão mal e que sofreu uma derrota "terrível e definitiva". Convence-se disto de tal modo que resolve não voltar a jogar.

  Ao longo da partida, os espectadores vão reagindo a cada jogada. Todos os períodos de reflexão de Jean são alvo de impaciência e todos os seus movimentos são recebidos com desdém, fastio e menosprezo. São sempre explicáveis segundo uma lógica que é comum à da assistência, são sempre expectáveis, mesmo quando não esperados, sempre razoáveis, mesmo que nunca lhe dêem razão. De facto, apesar de nunca o terem vencido, não conseguem admirá-lo: não o tomam como jogador brilhante, capaz de rasgos inesperados e empolgantes. Não o vêem como substancialmente diferente, como especial, apesar de ele ganhar sempre. Jean joga como eles, só que melhor. Se vence é porque não comete erros – ou comete menos. Mas o seu jogo – seguro, cauteloso e eficaz – não empolga nem emociona. Assim, o labor sério de Jean há-de dar-lhe sempre a vitória, mas nunca lhe dará o público.
  Tudo ao contrário se passa com o desconhecido. As suas jogadas são imprevisíveis e surpreendentes. Os riscos que corre em cada movimento empolgam a audiência. A indiferença perante o perigo provoca nela admiração. As suas jogadas podem ser as mesmas que teria qualquer inapto, mas a confiança que demonstra em cada gesto, a segurança que exibe em relação a cada lance e a prontidão com que responde a cada cálculo do oponente transformam completamente o significado dessas jogadas: joga como um louco, mas é um génio; decide como um inconsciente, mas nada lhe escapa; sofre perdas como quem é incapaz de antecipar seja o que for, mas nunca é surpreendido. Assim, o jovem nunca ganhará a partida, mas o público pertence-lhe.
  O desconhecido tem tudo para ser um génio – excepto a genialidade. Jean sente que perdeu. Há algo no seu adversário que ele não conseguiu vencer, que nunca poderá derrubar, porque não apreendeu sequer. Também ele, tal como o público, se impressionou com este indivíduo. Julgou que ia perder, foi mais cauteloso que nunca. Acabou por ganhar e, no fim de contas, sente-se derrotado. Esse algo que Jean não quebrou, não foi capaz de deitar abaixo, é indestrutível para ele, porque não consegue apreendê-lo. É algo que não pode captar, não pode agarrar e destruir ou guardar. Porque esse algo não é nada. O jovem não escondia o que quer que fosse: tudo o que tinha estava exibido, e, assim, Jean não pode ganhar este outro jogo, porque não há nada que ele possa verdadeiramente vencer. Jean disputou a partida como se o jovem fosse o génio que parecia. Se o caso fosse tão simples, se o seu oponente fosse um génio do xadrez, tudo teria corrido sem males de maior para Jean. Porque ele próprio, como confessa a si mesmo, já desejava perder, nem que fosse para acalmar a fúria do público invejoso contra si. Mas o que se passava era outra coisa: o jovem não era simplesmente um génio do xadrez capaz de jogadas brilhantes, lances arriscados e vitórias dramáticas. O seu jogo era outro, e nesse outro jogo Jean perdeu.
  Há de facto outro jogo disputado durante esta partida. Um jogo que toma a partida de xadrez por objecto, mas não se confunde com ela. Se pensarmos em jogos como o póquer, por exemplo, começamos por notar que em teoria, quem tem as melhores cartas deveria vencer. Há um jogo, no entanto, paralelo ao das cartas e que decorre em simultâneo: o do bluff. Um jogador com cartas piores pode mesmo vencer graças a um bluff eficaz. Ora, na história de Süskind, somos levados ainda mais longe nesta separação: no póquer, o bluff pode ser essencial para determinar o vencedor, mas a disputa paralela entre Jean e o estranho não está tão ligada ao que se passa no tabuleiro. Com efeito, apesar de copiosamente derrotado nesse plano alternativo, Jean ganha a partida de xadrez. Aquele outro jogo não é, como se vê, este jogo de xadrez, embora seja jogado através dele. A partida de xadrez funciona como pretexto para o verdadeiro jogo ser jogado. Que outro jogo é esse?
  Quando o jovem avança uma das suas peças num movimento arriscado, ninguém o toma por inconsciente ou inapto, mas por arrojado. À medida que vai sujeitando as suas peças a um massacre, ninguém o vê como suicida, mas sim como mestre brilhante. Quando sacrifica peças importantes sem aparentemente ganhar nada com isso, tomam-no, não por imbecil, mas sim genial. Se, no final, as pessoas ficam um pouco surpreendidas ao perceberem que nada de especial aconteceu no que respeita ao xadrez propriamente dito – o desconhecido sofreu uma derrota sem apelo nem agravo –, é porque acabaram por confundir os jogos. Para percebermos a confusão, notemos o modo como o seu adversário vive a situação.
  Normalmente, Jean percebe o que se passa durante o jogo. Compreende, não só o que acontece no tabuleiro, como também os raciocínios do outro xadrezista. Joga pela mesma lógica que guia os outros – tem, simplesmente, melhor domínio da mesma. Assim, se este estranho fosse realmente um xadrezista genial, Jean continuaria a compreender e a dominar os acontecimentos fora do tabuleiro. A racionalidade permaneceria a mesma e Jean teria simplesmente encontrado alguém melhor que ele a usá-la. Mas não é isto o que se passa. A lógica deste jovem é outra. Ele não sabe jogar, ou joga muito mal, mas isso não o preocupa. Ele não joga sequer como se estivesse seguro de vencer, mas sim como quem está seguro de vencer ou perder, sendo indiferente qual dos desenlaces se vem a produzir. Podia ser alguém que não compreende o jogo e acaba engolido por ele, mas, em vez disso, tudo indica que o compreende tão bem que a partida é para ele uma brincadeira – a ponto de não fazer sequer diferença ganhar ou perder. Esta é uma lógica que escapa completamente a Jean. A expectativa gerada em torno do desenlace da disputa só se percebe na óptica de quem julgava que este rapaz tinha algum segredo, alguma carta na manga que lhe permitiria ganhar o jogo ou, pelo menos, inventar uma jogada genial. Mas tal não teria sentido nesta história, porque o jogo do desconhecido é outro. E não se trata de perder uma peça porque secretamente se planeia ganhar outra – como faria um jogador habilidoso – ou porque se fracassou uma qualquer jogada tentada – como aconteceria com um simples mau jogador –, mas sim de perder uma peça com a confiança de quem a avança sem hesitações porque nada tem a perder, porque perder uma peça não é perder nada, porque perder o jogo não faz diferença nenhuma. O desconhecido joga com a descontracção de quem jogaria a vida tão facilmente como joga a sua dama no tabuleiro. Avança o peão em direcção ao perigo, sim. Mas não o faz apenas sem medo: fá-lo sem hesitações e, sobretudo, sem arrependimentos. Cada lance deste jovem é afirmado com a segurança de quem não se deixa afectar por efeitos ou consequências. Todos os seus gestos são seus – não partilha nenhum com o adversário.
  Não é assim com Jean. Ele não consegue captar a lógica do desconhecido que tem à frente e, assim, não pode controlá-lo. Joga com medo durante toda a partida e, por mais peças que conquiste, nunca está verdadeiramente por cima. A racionalidade de Jean é evidente. A lógica que o move está tão ligada às movimentações no tabuleiro – aos seus efeitos e implicações – que ele não consegue ir além disso. Ora, quem joga como quem brinca, com a descontracção de quem não se importaria de morrer, desde que por decisão própria, não pode temer um adversário como Jean. Pelo contrário, é fácil apreendê-lo e manietá-lo: todos os gestos de Jean pertencem ao seu adversário.
  Jean revelou, é bom notar, grande heroísmo em ter procurado manter-se fiel à sua maneira de jogar. Ainda que jogando muito pior que o habitual, não cedeu e aguentou até ganhar a partida. Mas, no fim de contas, no outro jogo – aquele que o público viu, mas não percebeu –, saiu derrotado. O seu voto de não voltar a jogar xadrez é a prova mais evidente disso mesmo. Jean abdica porque embora perceba perfeitamente porque ganhou a partida, não entende porque perdeu. Não pode entender, porque, embora o tenha sentido, não chegou a perceber que jogo foi esse que perdeu. Abdica do xadrez porque não conhece outro jogo. Nem mesmo aquele em que sofreu a derrota da sua vida.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O rei fantasma

  No livro Das Parfum (Patrick Süskind), conta-se como Grenouille possuía a habilidade de, por um lado, memorizar tudo o que cheirava, e, por outro, reproduzir através das suas recordações todos os perfumes que trazia guardados na memória.

  Hume apresenta como generalizada a opinião de que há uma diferença marcada entre uma sensação e a recordação dessa sensação, sendo esta necessariamente inferior àquela: “Every one will readily allow, that there is a considerable difference between the perceptions of the mind, when a man feels the pain of excessive heat, or the pleasure of moderate warmth, and when he afterwards recalls to his memory this sensation, or anticipates it by his imagination. These faculties may mimic or copy the perceptions of the senses; but they never can entirely reach the force and vivacity of the original sentiment. (...) The most lively thought is still inferior to the dullest sensation.” (David Hume, An Enquiry concerning Human Understanding).
  O caso de Grenouille parece contrariar esta regra, pois a vivência das suas recordações é para ele tão intensa quanto a impressão original, i. e., nele a ideia não é inferior à sensação – o que significa que, no fim de contas, nele a ideia nunca deixa de ser sensação. É graças a esta particularidade que Grenouille pode retirar-se para dentro de si próprio durante sete anos, escondendo-se numa pequena gruta e vivendo apenas da reprodução mental das sensações olfactivas acumuladas ao longo da vida. Ele é afinal como o sábio estóico, pois basta-se a si mesmo: dispensa o mundo, as suas imagens e os seus perfumes. Não precisa de ir procurá-los lá fora, à realidade das coisas; encontra-as na verdade dos seus pensamentos. Por isso ele poderia dizer, como Bias diante dos persas, que, não tendo quaisquer posses ou amigos, tem no entanto tudo o que precisa, e tudo o que tem e de que precisa traz consigo.

  Durante sete anos, Grenouille, criatura sem bens de qualquer ordem, alimentando-se da água que lambe nas pedras e de ervas, leva a vida de um monarca feliz. O seu interior é o lugar onde ele vive verdadeiramente; aí ele é senhor de um reino e habita um castelo. Porque as suas ideias são sensações, tudo o que ele imagina é real nesse mundo e o exterior não tem para si qualquer importância. Grenouille não procura nada fora de si porque a paz que encontra no interior permite-lhe reinar, ter prazer e ser feliz. E por isso a sua história lembra-nos que os mundos internos só no exterior se tornam imaginários – e ele sabe que os castelos que fabricamos no nosso interior não precisam de ser trazidos cá para fora para os podermos habitar. Porque Grenouille percorre o caminho inverso: em vez de trazer o seu reino para o exterior, onde tudo se desfaria com o peso da realidade, é ele mesmo que migra para dentro de si, com a confiança de saber que as ilusões íntimas são apenas verdades pertencentes a outros mundos.

  Dá-se então uma catástrofe que obriga Grenouille a deixar o seu paraíso. Através de um sonho, descobre que não tem odor, não consegue cheirar-se a si mesmo. Este episódio é para ele tão terrível que tem de abandonar o seu retiro, pois sabe que não aguentará um outro sonho como aquele ("Er würde sein Leben ändern, und sei es nur deshalb, weil er einen so furchtbaren Traum kein zweites Mal träumen wollte. Er würde das zweite Mal nicht überstehen").
  A experiência traumática pela qual desaparecem o reino, o castelo e seus tesouros, na verdade, deixou tudo isso intacto, atingindo apenas um elemento do seu mundo: ele próprio. Porque Grenouille percebe (ou pressente) que, não tendo odor, não existe. O seu terror é o de descobrir-se um fantasma no reino de odores que criou e do qual se julgava Deus: afinal, mais do que os seus pastos, o seu castelo, os seus criados ou as suas garrafas armazenadas, é ele mesmo o elemento imaginário do seu universo.
  Pode o seu reino continuar a ser verdadeiro quando o rei que o governa não se encontra a si mesmo? Estando o universo dependente do seu criador, ele provavelmente desmoronar-se-ia assim que o demiurgo desaparecesse. O buraco que Grenouille descobre em si próprio engoliria então toda a vida daquele mundo interno. Mas Grenouille não criou verdadeiramente o reino que habitava. Porque todos os odores que ele convocava nas suas sessões foram encontrados fora de si, trazidos da realidade que ele quis desprezar. Grenouille é amo, rei, senhor no seu mundo. Mas esse mundo não é seu, pelo menos não na medida em que ele não o inventou do nada. Será Grenouille verdadeiramente um sábio estóico? Durante sete anos, tudo o que ele tinha e de que precisava trazia consigo, com desprezo pelo que o mundo lhe podia oferecer. Mas isto só pôde ser assim depois de ele ter trazido para dentro de si tudo o que conseguiu retirar ao mundo lá fora. Se Grenouille, em suma, não precisa do mundo exterior, por se bastar com o que traz dentro de si, isto só é possível na medida em que o seu mundo interno é afinal o mundo lá fora trazido para o seu interior.
  O mundo exterior não depende de Grenouille para ser verdadeiro. O interior sim. Porque afinal o seu reino só existiu enquanto ele o habitou. Um rei que dá vida ao seu reino: eis a grande dádiva que ele pode conceder ao seu universo pessoal. Ele não criou os odores que reproduzia incessantemente na sua memória. Mas trouxe-os para dentro de si e deu-lhes a vida a que eles tinham direito, a única que um perfume pode chegar a ter: a vida através da respiração de quem os recebe. Escapando a um mundo que não só não dependia de si para existir como o recusava e negava, Grenouille refugiou-se num outro mundo que, esse sim, só existia porque Grenouille o via e o respirava. Este outro mundo vai desaparecer quando ele partir, porque existia apenas para ele. Mas ele tem de partir, por perceber que não pôde afinal cumprir o seu desiderato: conseguiu um mundo que só existia porque ele lhe dava vida; mas não um mundo que lhe desse vida a ele.

  Mais tarde, já após ser condenado à morte e espancado pelo guardas, perguntam a Grenouille se ele precisa de algo, ao que ele responde não precisar de nada, explicando o narrador que ele já levava consigo tudo o que precisava.

  Podemos perceber agora melhor a ironia desta passagem. Mais uma vez ele parece o sábio estóico e este momento, aliás, lembra o de Bias à saída da sua cidade-natal. Só que Grenouille leva desta vez consigo um bem material: o frasco do seu precioso perfume.
  Eis algo que Grenouille tem de segurar na mão para não perder. Ora, a sabedoria estóica ensina-nos, no fundo, que tudo aquilo que é meu e de que verdadeiramente preciso é sempre algo que não tenho de agarrar, porque levo sempre comigo. As mãos só seguram aquilo que se pode perder e isso, por definição, é algo que não chega a pertencer-nos nunca. Eis então a tragédia de Grenouille: o perfume que leva na mão, o seu perfume, é precisamente o odor que ele não encontra em si e precisa de apanhar lá fora, no mundo que o negou e que ele pensou poder rejeitar. Ao procurar um sopro exterior, ele já se sabe condenado à partida, porque o espírito é sempre algo que tem de nascer a partir de dentro, de modo a poder sustentar o corpo.

  Conhecedor da verdade dos mundos internos e ciente de que os perfumes, como as imagens, podem sempre nascer de novo em recordações, Grenouille falhou apenas em conseguir encontrar no mundo o único elemento que faltava no seu reino maravilhoso: ele mesmo.

domingo, 16 de outubro de 2016

A máscara falhada

   No livro Das Parfum (Patrick Süskind), quando Grenouille coloca umas gotas do seu perfume, a multidão que antes o queria trucidar passa a adorá-lo, a ponto mesmo de ser tido por todos como inocente dos crimes que obviamente cometera.
   Este é o momento do grande triunfo de Grenouille, aquele em que consegue emanar um odor que atrai todos os outros. Mas não é como tal que ele o vive. De facto, este triunfo assusta-o precisamente porque ele não o pode usufruir ("Er wurde ihm fürchterlich, denn er konnte keine Sekunde davon genießen").
   O triunfo é obra de Grenouille, mas não é seu, não lhe pertence, pela razão simples de que não é verdadeiramente a ele que se dirigem aquelas pessoas e sim à máscara que ele criou. A máscara não mostra o seu interior, desconhecido até para si mesmo. Esse, de resto, é o verdadeiro motivo do seu terror. Porque se Grenouille trabalhou para criar tal perfume e desencadear nos outros uma reacção, fê-lo para, uma vez na vida, conseguir exteriorizar o seu íntimo, como as restantes pessoas ("Er wollte sich ein Mal im Leben entäußern. Er wollte ein Mal im Leben sein wie andere Menschen auch und sich seines Innern entäußern"). Mas falha no seu intento. As pessoas apaixonam-se por uma máscara que ele veste sem poder chamá-la sua. Porque todas as máscaras são usadas com o propósito aberto de nos escondermos, na esperança inconfessada de nos mostrarmos a outra luz. Não é isso que acontece com Grenouille, que esperava descobrir o que esconderia e mostraria a sua máscara assim que a colocasse, e acaba por compreender que para si todas as máscaras são impossíveis, pois nelas nada se mostra, e atrás delas, onde ele se queria encontrar, nada se esconde.
   O caso do Joker é outro em que atrás da máscara habita apenas a escuridão, mas aí o pesadelo mora do lado do espectador: o Joker identifica-se com a sua máscara, mora nela e não atrás dela, pelo que o terror surge apenas para quem assiste ao seu sorriso. Grenouille, ao invés, não consegue identificar-se com as máscaras de odor que cria. Veste-as na esperança de conseguir descobrir-se a si mesmo nelas e atrás delas, mas falha porque nada encontra ("und er trug unter dieser Maske kein Gesicht, sondern nichts als seine totale Geruchlosigkeit").
   Não admira assim que Grenouille precisasse de um público. Com efeito, a máscara permite-me conhecer-me a mim mesmo – pelo que mostra de mim escondendo-me –, mas ela só funciona perante o olhar dos outros. Esse, de resto, é o segredo para derrotar o Joker: fechar os olhos, retirar o público ao seu sorriso. Grenouille precisava também do seu público para dar vida à sua máscara e encontrar-se finalmente. Foi bem sucedido quanto ao primeiro intento, mas falhou no segundo.
   Os sentimentos das pessoas por Grenouille são agora de adoração, veneração até. Grenouille dirige-lhes o seu ódio, mas este não atinge ninguém. A sua máscara actua por ele, em vez dele. A generalidade das pessoas actua através das suas máscaras, mas o caso de Grenouille não chega sequer a ser o inverso disso, porque a sua máscara não parece precisar dele para actuar. Grenouille, no seu íntimo, é tão inexistente para a multidão como para si mesmo.
   É esta então a sua grande derrota. Porque ele quis procurar-se nos outros depois de não conseguir encontrar-se dentro de si mesmo. Colocou uma máscara para que o vissem e assim poder encontrar-se no reflexo dos olhares alheios. No fundo, quis descobrir-se pelo atalho dos olhos dos outros, quis que o seu reflexo lhe mostrasse quem era. Mas os outros vêem uma máscara que, afinal, não é a sua, e por isso nada pode dizer-lhe sobre si próprio.
   A máscara que nos pertence é aquela que, erguendo uma barreira aos olhares estranhos, abre a porta para que um estrangeiro visite o nosso íntimo. Por isso, ao ver Richis, o pai de uma das suas vítimas, Grenouille alegra-se, pensando que aquele não se deixará enganar pela sua máscara e que o vai matar; que assim será Richis o primeiro estrangeiro a visitar o seu interior, o primeiro elemento estranho que lhe permitirá familiarizar-se consigo ("endlich, endlich etwas in seinem Herzen, etwas anderes als er selbst!"). O plano de Grenouille revela aqui uma sabedoria muito peculiar: ele tem consciência de que é preciso deixarmos entrar em nós um elemento estranho para nos revelarmos a nós mesmos.
   O seu plano falha, porque também Richis conhece apenas a máscara, não vê nem ouve ninguém atrás dela. Também ele o adora e não chega sequer a perceber o seu ódio. Não chega nunca a ver Grenouille, deixando-o na angústia de não saber se de facto haveria algo para ver.
   Por ter falhado em mostrar-se aos outros, Grenouille não chegou a conseguir ver-se a si mesmo. Ao contrário de quem se engana escondendo-se de si e dos outros atrás de máscaras, Grenouille vestiu uma máscara para se mostrar aos outros e a si próprio, mas não conseguiu – não porque a sua máscara tenha mostrado o que devia esconder ou escondido o que devia mostrar, mas sim porque, aparentemente, nada havia a mostrar ou a esconder. Uma máscara falhada, eis aquilo a que se pode resumir a história de Grenouille.

domingo, 4 de setembro de 2016

(Pequenas solidões) A poesia silenciosa

  No livro Das Parfum, de Patrick Süskind, Grenouille, o personagem central, comete vários assassínios, mas há algo de estranha e inegavelmente belo no primeiro de todos.
 Neste homicídio inaugural transpira uma espécie de poesia silenciosa: podemos captá-la apenas através das palavras que o descrevem ou vendo as imagens dos acontecimentos. Nunca poderíamos ouvi-la, porque ela não mora nas palavras, nem sequer nas imagens em si, mas naquilo que acontece, no que está exibido.
  Como em vários outros momentos do livro, a cena é marcada por uma espiritualidade evidente. O que Grenouille quer da jovem que encontra sentada no beco é o seu perfume, não o seu sexo; não quer o seu corpo, mas o seu espírito; não quer comê-la, quer respirá-la. O que não serve para duvidar de que este é realmente o seu modo de ter sexo. De facto, podemos dizer que ele possui a jovem, e talvez a possua mais verdadeiramente do que qualquer outro homem possuiu alguma vez uma mulher, visto que Grenouille suga-lhe a essência, apodera-se do seu perfume, do seu espírito, da sua verdade, e passa a trazê-los dentro de si. Possui-a porque a toma para si, fá-la sua.
  A própria cena tem, de todo o modo, a sua poesia: a jovem está de costas distraída em inocência, enquanto ele se aproxima feito pura atracção, somente desejo de possuir. Ele é apreciador único do que de único tem aquela jovem para oferecer, pois é perscrutador do seu espírito. O corpo dela não é nada para ele e ela não pode esconder-lhe seja o que for, muito menos a si mesma. A arte de seduzir é a de saber esconder. A mulher que apenas mostra faz-se objecto de pornografia; a que também esconde joga com erotismo. E no entanto esta moça não pode esconder nada de Grenouille, porque o seu perfume já revelou a este a verdade secreta que nela mora. É essa a pureza do desejo de Grenouille: diferentemente do desejo perverso do comum pretendente, que quer espreitar o que a moça esconde, que procura o que não consegue ver, ansiando pelo desconhecido, Grenouille está atraído precisamente por aquilo que já descortinou, aquilo que já conhece. O seu desejo não chega sequer a prometer fidelidade: ele condena-se a si mesmo a ser fiel logo que surge, pois nasce para o que já viu, não precisa de espreitar por nenhuma cortina – a desilusão e a traição não são nunca hipótese para ele.
  Ela é só inocência. Toda a aproximação do seu assassino se dá por trás, sem que ela perceba a sua existência. A acção da jovem é uma mera exibição passiva. Ele é todo aproximação, desejo preenchido em absoluto pelo que vê (i. e., pelo que cheira).
  Grenouille aproxima-se sem barulho ou cheiro porque é um demónio. Um ser que surge sem som ou perfume, cuja presença nos é anunciada com calafrios, como aqui sucede. Ela então vira-se, mas não tem tempo de dizer nada, nem poderiam existir palavras nesta cena. Qualquer palavra a destruiria, ao gesto que aqui se produz. Tudo é evidente e tudo é essência, ela apenas inocência, medo, beleza passiva, perfume livre e sem defesas; ele apenas um vazio andante vampiresco, desejoso, faminto e assassino. Qualquer palavra aqui destruiria a cena porque qualquer palavra de um deles seria redutora, limitaria o espaço do que se quisesse expressar, deixaria sempre algo de fora. Nenhuma palavra poderia transmitir tudo, como o fazem as imagens e o que nelas podemos ler. 
  Grenouille mata-a em silêncio, aperta-lhe o pescoço com as mãos, mas isto poderia ser um abraço. De facto, ele mata-a sugando-lhe o espírito; de certa forma, ele não a mata (da sua própria perspectiva), antes a traz para dentro de si, a essência dela continua a viver dentro dele. Como nos filmes de Hitchcock, também aqui percebemos que se o amor pode facilmente tornar-se agressivo, violento, também o assassinato pode ser um acto de amor (ou uma violação).
  Finalmente, ninguém como Grenouille sabe olhar para um corpo fisicamente perfeito e dizer que ele nada tem de belo ou sequer interessante, porque ninguém como ele sabe dizer que lhe falta o espírito. Sem o perfume que o habitava, o corpo da jovem, belo como há uns instantes, quando ainda tinha vida, é agora um mero cadáver.