E não era com as próprias bocas que riam, mas com outras.

Odisseia, canto XX
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Condenado a perder


W. W. Denslow

  No livro The wonderful wizard of Oz (L. Frank Baum), Dorothy, o espantalho e o lenhador de lata encontram no seu caminho para Oz um leão, que primeiro os atemoriza com ameaças e jactâncias, mas que depois se amedronta assim que Dorothy o confronta por ter assustado o seu pequeno cão.

  O leão é realmente um cobarde? Ele começa por avançar imponente e sem hesitações quando encontra a rapariga, o lenhador de lata e o espantalho. Mas recua temente perante a reprimenda da menina. Deveria ele ripostar, ou até atacar, para se mostrar corajoso?
  Tivesse o leão enfrentado Dorothy e não seria mais corajoso por isso. A bravura joga sempre com uma superação de limites: é dirigindo-nos àquilo que é maior que nós que nos mostramos destemidos.  Se o louco é um alienado, é porque se afasta de si mesmo e se perde das suas fronteiras. Todo o sujeito bravo é um louco que avança em direcção ao que ameaça engoli-lo – é preciso alguma insanidade para aceitar conhecer a barriga do monstro. As criaturas terríveis não são feitas à nossa medida: a medida do monstro é antes a da escuridão, porque é esta que tem a maior de todas as bocas.
  Quando ameaça o cãozinho e os outros, o leão quer ocupar a posição inversa à do louco, à do homem pequeno que não abranda nem muda de sentido por encontrar feras no caminho. Quando se mostra feroz contra aquele grupo aparentemente tão inofensivo, ele assume, não o lugar do sujeito destemido que encara o monstro, mas o do próprio monstro, esse que se propõe engolir as pequenas criaturas. E sendo esta a posição inversa, ninguém é, afinal, mais cobarde que um monstro. Por ter a boca maior, o monstro não pode engolir ninguém sem comprovar desse modo o seu medo. O leão é, assim, cobarde, não tanto – ou não apenas – quando recua, mas logo quando avança contra os pequenos. Os maiores cobardes abrem a boca, mostram os dentes e rosnam assim que vêem presas fáceis. Veja-se o exemplo inverso do seu amigo tigre (no livro Ozma of Oz, de L. Frank Baum): apesar das mandíbulas e das garras de que dispõe e que lhe permitiriam comer facilmente algum dos bebés que vai encontrando pelo caminho e que lhe provocam fome, ele não se atreve a fazê-lo: não é suficientemente cobarde para tal. Não é talvez isso uma prova de bravura, mas também não é somente mostra de educação: é demonstração de que ele não tem medo.
  Dorothy triunfa sobre o leão, como triunfam sempre todos os Davides que não hesitam diante dos Golias, mesmo quando estes, aparentemente, os destroem. Triunfam primeiro porque exibem a loucura dos corajosos. Mas saem além disso vitoriosos porque forçam a derrota do seu opositor: qualquer gigante que ataque um anão já perdeu antes mesmo de o choque ocorrer. A vitória final de David sobre Golias não é, por isso, mais que uma encenação teatral do desfecho que já tinha tido lugar antes mesmo de ele lançar a pedra. Também Dorothy ganha ao leão assim que o encara, porque este perde logo que avança.
  Qualquer rufia de escola que persiga os mais pequenos está condenado a perder, como qualquer um destes que o enfrente está destinado a ganhar (mesmo, ou até sobretudo, quando o vilão o subjugue pela força). Ainda quando ninguém o encare, porém, ele não foge ao seu fado: ele não precisa verdadeiramente de um louco que o combata, já que, vendo bem, é ele próprio que carrega a sua derrota e se vence a si mesmo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Um coração onde cabem borboletas


W. W. Denslow

  No livro The Patchwork Girl of Oz (L. Frank Baum), Margolotte e o tio de Ojo foram transformados em pedra. Para os salvarem, Ojo e os amigos precisam de levar ao Dr. Pipt, entre outras coisas, uma asa de borboleta amarela, pois esse é um dos ingredientes de que ele precisa para fabricar o pó que permitirá trazer de volta os acidentados. No entanto, o lenhador de lata, imperador do país onde o animal poderia ser encontrado, recusa-se a deixá-los arrancar qualquer asa a uma borboleta, pois, devido ao coração gentil que o feiticeiro de Oz lhe ofereceu, ele não suporta que se faça sofrer uma criatura viva. Ao contrário, Scraps, a rapariga feita de retalhos, não compreende que importância tem uma borboleta, pois não lhe foi dado um coração.

  É muito curiosa esta bondade do lenhador de lata. Não suporta que façam mal a uma borboleta, mesmo que seja esse o único meio de salvar duas pessoas. Para ele, ao que parece, os fins nunca justificam os meios. Não há resultado tão importante ou valioso que valha o sacrifício de uma borboleta. É uma ideia tão perigosa quanto bonita: aparentemente, no seu coração cabem borboletas, mas não pessoas.
  Muitas pessoas capturam e matam borboletas apenas para as coleccionarem – sem razão, portanto. O lenhador é assim o inverso do caçador – não apenas no sentido imediato de que ele não captura borboletas, como também no mais radical de que enquanto o caçador mata borboletas sem porquê, o lenhador recusa-se a fazer-lhes mal mesmo tendo um porquê enorme para isso.
  "Who cares for a butterfly?", pergunta a rapariga de retalhos. Uma borboleta é para ela algo insignificante, não hesita em sacrificá-la por qualquer coisa que entenda ser mais importante. É o destino de muitas coisas pequenas: têm o tamanho da sua importância. No conto "Baratas", de Afonso Cruz, Hamza é um ex-condenado à morte que descobre um dia que a verdadeira razão de o sultão ter gritado e impedido a sua execução no último instante foi ter visto uma barata que o assustou, tendo depois, por vergonha, fingido que o grito fora proferido apenas para parar o carrasco. Instantes depois, Hamza tem a oportunidade de salvar uma barata prestes a ser esmagada, mas não o faz. Dá a seguinte explicação: "Uma barata é um ser suficientemente insignificante para salvar a minha vida, mas eu não sou suficientemente insignificante para salvar a vida de uma barata". A intransigência do lenhador revela-se a esta luz a modéstia esclarecida de alguém que sabe ser suficientemente insignificante para salvar uma borboleta. O precioso coração do lenhador mostra-se gigante na sua humildade: é suficientemente pequeno para que as borboletas possam lá entrar.
  Para o lenhador, não importa o tamanho ou a inutilidade da borboleta, mas apenas a possibilidade de ela sofrer. A fragilidade existe para ser protegida, porque, em rigor, ela começa por não existir: só nasce perante a ameaça. É a facilidade com que a rapariga de retalhos admite sacrificar a borboleta que faz nascer nesta a fragilidade. E é precisamente o enigma da fragilidade que o coleccionador de borboletas nunca poderá compreender: ele quer capturar a beleza da borboleta, guardar o que ela tem de mais caro. Mas é por ser tão frágil que a borboleta é valiosa. São as cores que a tornam bonita, mas é a delicadeza que a faz preciosa. Por resistir sendo tão débil, a borboleta é mais forte que as criaturas mais ferozes. Por sobreviver sendo tão mortal, a borboleta é mais improvável que o acaso. É esta vulnerabilidade que explica o seu tesouro e por isso o coleccionador que a captura só consegue a colorida carcaça da sua fragilidade.
  A cegueira do coleccionador, porém, não desculpa a sua maldade. De certo modo, esta é a mais pura das maldades: a que encontra prazer primeiro em destruir aquilo que, de tão improvável, era tão valioso, e depois em guardar e exibir o cadáver daquilo que já foi belo em tempos, mas ele não deixou que fosse mais. E por isso o lenhador mostra realmente a maior das bondades possíveis: ele não aceita sacrificar o delicado, já que sabe que toda a fragilidade é rara, porque improvável. Por ser bondoso, ele pode ver o que o sádico coleccionador ou a inconsciente rapariga de retalhos não conseguem: ele é o único que conhece o valor da borboleta, e assim a sua bondade faz dele o único recompensado pelo tesouro que ela traz.  

terça-feira, 17 de maio de 2016

Onde a magia se esconde

 

  No livro The Wonderful Wizard of Oz (L. Frank Baum), quando Dorothy e os amigos conseguem finalmente matar a Bruxa Má do Oeste e exigem ao feiticeiro que cumpra as suas promessas, descobrem que este é apenas um impostor. A sensação de desilusão que os invade assalta igualmente o leitor: afinal não há magia. Oz é capaz apenas de ilusões produzidas com maquinaria.
  É claro que se o feiticeiro é charlatão, pelo caminho não faltam encantos: bruxas, fadas, um chapéu especial que permite dar ordens a macacos voadores, árvores ferozes, etc. E, no entanto, o surgimento do homem escondido atrás da cortina parece transformar tudo em faz-de-conta. Esta impressão é ainda mais forte no filme The Wizard of Oz (Victor Fleming), onde a revelação do impostor quase traz de volta à colorida Cidade Esmeralda os tons sépia do início do filme.
  Disse Jorge Luís Borges sobre o Bartleby de Melville: "Es como si Melville hubiera escrito:  Basta que sea irracional un sólo hombre para que otros lo sean y para que lo sea el universo". Algo de semelhante sucede com o feiticeiro de Oz: parece bastar a revelação de que este homem é um impostor para toda a magia desaparecer do mundo. E soa-nos assim ridícula a felicidade do espantalho quando Oz lhe enche a cabeça de farelos, como se fossem miolos; ou a do lenhador de latão, quando recebe, como coração, uma almofada de serradura. A sua alegria reveste-se do despropósito infantil de ver coisas com a imaginação e não com a razão. Porque agora que a cortina foi aberta e descobrimos o homem por detrás dela, já sabemos, adultos descrentes, que a magia não existe. O espantalho, o leão e o lenhador, pelo contrário, não o sabem, porque eles, no fim de contas, seguiram a famosa recomendação dada no filme pelo feiticeiro: "Pay no attention to that man behind the curtain!".
  A humanidade de Oz faz-nos esquecer toda a magia que habita aquele universo. Mas ela continua lá. E cá também. Habituámo-nos tanto a ela que deixámos de a ver. Os milagres não têm por que acontecer somente em uma ocasião; mas é só perante esses – que têm lugar apenas uma vez – que falamos em milagres. É como se, aos nossos olhos, um milagre morresse de cada vez que se repete. Mas não é por o sol ter nascido hoje que o seu nascimento amanhã será menos espectacular. É o que nos explica Chesterton: "A tree grows fruit because it is a magic tree. Water runs downhill because it is bewitched. The sun shines because it is bewitched." (G. K. Chesterton, Orthodoxy). Se um fruto se desprender do ramo da árvore e fugir disparado para o céu ficaremos maravilhados. Mas porque ele tende a cair ao chão sempre que se desprende achamos que a queda não tem mistério. Como se essa queda fosse menos mágica por já a termos visto antes. A magia não mora na novidade e sim no oculto: eu sei que o fruto cai devido à gravidade. Mas "gravidade" é apenas o nome do feitiço. Se o fruto cai é por estar enfeitiçado.
  Dizia-se no livro Peter and Wendy (J. M. Barrie) que uma fada morre de cada vez que alguém diz que não acredita em fadas. É um pouco assim que, de facto, a magia funciona. Oz é afinal um impostor, a almofada de serradura é um coração a fingir, como os farelos não são verdadeiros miolos. Mas a abóbora da Cinderela também não é um verdadeiro coche. E, no entanto, é este coche que a leva ao baile. O espantalho tem farelos no lugar de miolos, mas pensa muito bem, assim como o lenhador com uma almofada no lugar do coração tem sempre bons sentimentos. A magia dos contos de fadas torna verdadeiras as coisas de faz-de-conta. É esta a magia que desprezamos e que, por isso, deixamos de ver. Mas esquecemos que as coisas não são apenas mágicas por aquilo que não são, mas sobretudo por aquilo que são. Parece-nos disparatada a história da bruxa que transforma o príncipe num sapo. Mas aceitamos como banal que um ovo se transforme numa galinha.
  Podemos rir-nos do ridículo do espantalho, do leão e do lenhador, por verem a magia onde ela não existe. Mas não há maior ridículo que o nosso: onde a magia existe, não a vemos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O amor pelo dinheiro – O Tio Patinhas e o Espantalho


  Scrooge Mcduck (personagem de Carl Barks), ou o Tio Patinhas na versão portuguesa, é um pato milionário, dono de uma caixa-forte gigantesca cheia de dinheiro – moedas de ouro, notas, etc. Guarda-o numa espécie de piscina onde nada por divertimento. Custa-lhe muito separar-se do dinheiro, não havendo praticamente nada que lhe pareça valer a pena comprar. Ou seja, toda a compra é, à partida, um desperdício de dinheiro. Para o Tio Patinhas, este vale por si, não pelas coisas que permite adquirir.

  Será o Tio Patinhas verdadeiramente forreta e ganancioso? O seu amor pelo dinheiro é isso mesmo: amor, devoção, afecto pela sua riqueza. Embora as pessoas queiram, por norma, ter dinheiro, o que elas verdadeiramente querem são as coisas que ele permite comprar. Mesmo quando são forretas, isso não contraria esta regra, pois aí não se trata tanto de não querer as coisas que o dinheiro compra, como do medo de perder a oportunidade de comprar outras coisas que o montante gasto permitiria adquirir. Não no caso do Tio Patinhas: à partida, não há nada em que ele queira gastar a fortuna; de facto, o único objecto que o pode motivar a gastar é aquele que lhe permita, em perspectiva, adquirir mais dinheiro no futuro.


John R. Neill

  Para percebermos melhor a relação do Tio Patinhas com o capital, lembremos a figura do Espantalho, da série de livros de Oz. No segundo livro – The Marvelous Land of Oz (L. Frank Baum) –, a dada altura, é necessário retirar a palha do Espantalho e espalhá-la, de modo a salvar alguns dos seus companheiros. Os pássaros que então os atacavam, no entanto, levam todos os fios de palha de que o Espantalho se compunha e nada sobra dele a não ser a sua cabeça. Perante isto, o Espantalho vê-se acabado, mas os seus amigos acabam por salvá-lo enchendo as suas roupas com outro material, que por acaso ali abundava naquela altura: dinheiro. Cheio (literalmente) de dinheiro, o Espantalho fica como novo e tem outra vez um corpo.
  Há uma ironia óbvia a que podemos associar a troca da palha pelo dinheiro. "Palha" tem também o sentido de coisa inútil ou banal, sem valor – o oposto, portanto, do dinheiro. Mas ambos são coisas fungíveis: coisas susceptíveis de serem trocadas por outras semelhantes sem diminuição de valor. Uma moeda ou uma nota, tal como um fio de palha, não valem por serem objectos únicos, podendo ser trocados livremente por um exemplar similar. Todavia, o dinheiro, supostamente, é uma coisa com valor, ao contrário da palha. Esse valor é o de troca: o dinheiro é valioso porque pode ser trocado por coisas que queiramos. Assim, uma moeda pode ser livremente trocada por outra semelhante, porque ambas são igualmente valiosas. Um fardo de palha pode também ser livremente trocado por outro, mas pela razão oposta: são ambos desprovidos de valor. Por isso, a moeda pode também ser trocada por outras coisas, mas a palha não. A ironia vai então ainda mais longe: a palha – que, em teoria, não deveria poder ser trocada por outra coisa que não algo semelhante – é trocada por dinheiro – que é valioso precisamente por poder ser trocado por coisas que têm valor, i. e., é valioso precisamente por permitir adquirir coisas que não são "palha".
  
  Mas há ainda um outro modo pelo qual, aparentemente, o Espantalho inverte o uso normal do dinheiro, pervertendo o seu valor: é mantendo o dinheiro (e não trocando-o por outros objectos) que este tem valor para ele. Ou seja, ele usa o dinheiro precisamente do modo inverso àquele a que ele estava destinado: o dinheiro só vale para ele se e enquanto ele não se separar dele. Um pouco como o Tio Patinhas, disposto a guardar para si toda a sua riqueza e gastando o menos possível.
  Podemos, contudo, perguntar se haverá aqui uma verdadeira perversão do uso do dinheiro. À primeira vista, a resposta parece afirmativa: tanto o Espantalho como o Tio Patinhas parecem gostar do dinheiro, não como coisa com valor de troca (precisamente o tipo de valor que é suposto o dinheiro ter), mas sim como coisa com valor em si, como objecto (precisamente o valor que é suposto o dinheiro não ter). E estes personagens parecem ainda mais próximos se atentarmos no seguinte: o dinheiro mantém o Espantalho vivo, já que o preenche e lhe permite ter corpo, existir como espantalho. Mas a fixação pato(-)lógica do Tio Patinhas é assim mesmo: o caso do Espantalho não é mais que uma caricatura do modo como o Tio Patinhas vive através do dinheiro.
  Olhando mais atentamente, porém, percebemos que o Espantalho não é exactamente como o Tio Patinhas. De facto, ele acaba mesmo por ser o seu inverso. O amor do Tio Patinhas pelo dinheiro faz deste uma coisa infungível: para ele, o dinheiro tem, naturalmente, valor como coisa que permite comprar coisas, pode ser trocado por outras coisas. Mas este carácter de moeda de troca é apenas o pressuposto para o verdadeiro afecto que ele lhe devota: ele gosta dele como coisa valiosa e, precisamente porque nele vê valor (e para isso tem de o ver como coisa susceptível de ser trocada), trata-o como coisa infungível, não o quer trocar por nada, quer mantê-lo.
  Com o Espantalho passa-se o inverso: ele radicaliza a fungibilidade do dinheiro. Para ele, o dinheiro não é tão (ou não é de todo) valioso como coisa que permite comprar coisas, trocar, mas sim como objecto em si. Só que, por isso mesmo, para ele é igual ter palha ou dinheiro. Ou seja, enquanto para o Tio Patinhas o dinheiro pode ser trocado por coisas (o que lhe confere valor) e, por isso, ele não o quer trocar por nada, para o Espantalho, precisamente porque não lhe interessa trocar o dinheiro por outras coisas (nessa medida, o dinheiro é inútil, não tem valor) é que o dinheiro lhe interessa, tendo, portanto, valor como objecto, como coisa em si.
  Tanto o Espantalho como o Tio Patinhas, em suma, gostam do objecto-dinheiro como coisa em si. Só o Espantalho, porém, tem um afecto desinteressado por este objecto, um afecto que não está dependente de as pessoas acharem que o dinheiro é valioso. Já o amor do Tio Patinhas só existe porque – e na medida em que – as outras pessoas também gostam de dinheiro.
  Por outro lado, o desinteresse do Espantalho faz com que para ele seja indiferente ter dinheiro ou palha, enquanto o Tio Patinhas não abandonaria uma moeda por toda a palha deste mundo. Qual deles é afinal mais rico ou demonstra o amor mais verdadeiro não depende de nada a não ser o nosso ponto de vista.

sábado, 2 de janeiro de 2016

"Mas tu estás sempre comigo" - "O Filho Pródigo" e "The Wonderful Wizard of Oz" (L. Frank Baum)

  Na Parábola do Filho Pródigo (Lc 15, 11-32), o filho mais velho indigna-se ao descobrir que o seu pai mandou matar o vitelo gordo e organizou uma festa em honra do seu irmão, regressado após ter esbanjado a sua parte da herança numa vida desregrada num país estrangeiro. Quando o filho mais velho censura o pai por nunca lhe ter prestado honra parecida, apesar de ele sempre ter cumprido as suas ordens, ao contrário do irmão, o pai responde-lhe: "mas tu estás sempre comigo".
  A mensagem é difícil de interiorizar, mas traz uma verdade profunda e com várias implicações. Entre elas está a de que aquilo que existe por dentro não precisa de existir por fora para ser real. O pai estava sempre com ele e, por isso, não precisava de o mostrar. Ao filho mais novo, pelo contrário – porque este se afastou e a presença do pai deixou de ser uma realidade –, foi necessária a demonstração dessa presença. Foi preciso provar. Só quem já sabe não precisa de provas. É isso, de resto, que explica o triunfo secreto – talvez o único – do crente sobre o ateu: o verdadeiro crente não precisa de milagres, nem os exibe. Ele já "sabe". Por isso Cristo repetia, vezes sem conta, que tinha vindo para resgatar os pecadores, as ovelhas tresmalhadas. Eram eles quem precisava de milagres. Aos verdadeiros crentes nada havia a provar.


W. W. Denslow

  A parábola finda sem notícia de qualquer reacção por parte do filho mais velho. Mas sabemos como reagiram outros ao ouvirem a mesma mensagem numa outra história: no livro The Wonderful Wizard of Oz (L. Frank Baum), quando o leão, o espantalho e o lenhador de lata, juntamente com Dorothy, finalmente descobrem que o grande feiticeiro é um impostor e o confrontam com as suas falsas promessas, ele explica-lhes que já têm aquilo de que necessitam, ou o que precisam para o conseguir – pelo menos o espantalho, o lenhador e o leão, no que respeita, respectivamente, a inteligência, bons sentimentos e coragem. (Mesmo Dorothy vem a descobrir que transportou sempre consigo o meio de chegar a casa: os seus sapatos).
  Nenhum deles, porém, fica satisfeito com a resposta: o falso feiticeiro explica ao espantalho que ele não precisa de cérebro, pois é mesmo assim capaz de aprender; de modo que experiência é tudo o que ele necessita para ganhar conhecimento. Mas o espantalho responde: “That may all be true, (...) but I shall be very unhappy unless you give me brains.” E os outros dão uma resposta equivalente.
  Oz acaba por satisfazê-los com objectos de faz-de-conta: enche a cabeça do espantalho de farelos, faz o leão beber um líquido verde que supostamente se tornará coragem quando estiver no seu interior e implanta no peito do lenhador um coração feito de seda e serradura. Todos ficam satisfeitos.
  Para o espantalho, o lenhador e o leão, trazer já dentro de si aquilo que procuravam não era suficiente: precisaram de o encontrar fora de si. Mas se só tem sentido a procura lá fora do que não encontramos cá dentro, a ironia do resultado das artes do feiticeiro impostor é óbvia: os objectos que receberam foram deixados em lugares que não poderiam ser ocupados por objecto nenhum, pois trata-se de coisas que não têm verdadeiramente lugar. Por isso, esses mesmos objectos que eles agora trazem dentro de si são afinal a maior prova de que estes personagens estão mais vazios que nunca – no sentido de que aqueles objectos nunca deixarão de ser coisas – provas, milagres – que eles encontraram fora de si, e permanecerão sempre lá fora, mesmo quando (ou sobretudo quando) parecem estar dentro. A única maneira, com efeito, de demonstrar que aquelas coisas – inteligência, coragem, sentimentos – estão verdadeiramente dentro – tão dentro que ninguém as poderia levar – seria abdicar dos referidos objectos – precisamente o contrário do que eles desejavam. Aquele que sabe que é corajoso não precisa de beber poções ou receber medalhas, do mesmo modo que o verdadeiro crente não precisa de ver milagres.
  Apesar de tudo, sabemos que o leão é verdadeiramente corajoso, o espantalho é verdadeiramente inteligente e o lenhador é verdadeiramente sentimental, pelo que a leitura não pode ficar por aqui.
  Debruçando-se sobre a contemporânea opção de exibir peças de lixo, ou mesmo excrementos, como obras de arte, Zizek (The Fragile Absolute – Or why is the christian legacy worth fighting for), com base numa leitura da sentença hegeliana "O espírito é um osso", defende que é precisamente a reacção negativa que temos como espectadores – "Isto é arte?!" –, ao experienciarmos a incongruência entre a coisa (fezes, lixo) e o lugar – supostamente atribuído a uma obra de arte – que ela ocupa, que nos permite apercebermo-nos da especificidade desse lugar.
  Adaptando um pouco isto, talvez seja precisamente a incongruência entre o objecto estranho (farelos, uma almofada de serradura...) – ou, mais precisamente, a sua exterioridade – e o lugar (interior) que eles ocupam que nos alerta para a especificidade desse mesmo lugar. Talvez os objectos sejam afinal essenciais para que a negatividade que permeia o quadro que os representa dentro do leão, do espantalho e do lenhador possa alertar-nos para a particularidade do lugar onde eles foram colocados. O que significa, por outras palavras, que talvez seja necessário possuirmos os objectos para sabermos que eles não nos fazem falta – confirmando-se assim que só fazem verdadeiramente falta os que não estão.
  Assim, se a uma primeira leitura da Parábola do Filho Pródigo pensamos que o filho mais velho aprendeu uma valiosa lição do seu pai, uma leitura mais atenta permite-nos perceber que este não percebeu a verdade fundamental que transpareceu na sua resposta: o pai explicou-lhe – bem – que, por estar sempre com ele, não precisava de vitelo nenhum. Mas tal como Oz teve encher de farelos a cabeça do espantalho e com uma almofada o peito do lenhador para provar que eles já tinham o que procuravam, matar o vitelo e fazer uma festa em honra do filho mais velho era precisamente o único modo que o pai tinha de lhe mostrar que ele não precisava de nada disso.