Scrooge Mcduck (personagem de Carl Barks), ou o Tio Patinhas na versão portuguesa, é um pato milionário, dono de uma caixa-forte gigantesca cheia de dinheiro – moedas de ouro, notas, etc. Guarda-o numa espécie de piscina onde nada por divertimento. Custa-lhe muito separar-se do dinheiro, não havendo praticamente nada que lhe pareça valer a pena comprar. Ou seja, toda a compra é, à partida, um desperdício de dinheiro. Para o Tio Patinhas, este vale por si, não pelas coisas que permite adquirir.
Será o Tio Patinhas verdadeiramente forreta e ganancioso? O seu amor pelo dinheiro é isso mesmo: amor, devoção, afecto pela sua riqueza. Embora as pessoas queiram, por norma, ter dinheiro, o que elas verdadeiramente querem são as coisas que ele permite comprar. Mesmo quando são forretas, isso não contraria esta regra, pois aí não se trata tanto de não querer as coisas que o dinheiro compra, como do medo de perder a oportunidade de comprar outras coisas que o montante gasto permitiria adquirir. Não no caso do Tio Patinhas: à partida, não há nada em que ele queira gastar a fortuna; de facto, o único objecto que o pode motivar a gastar é aquele que lhe permita, em perspectiva, adquirir mais dinheiro no futuro.
John R. Neill
Para percebermos melhor a relação do Tio Patinhas com o capital, lembremos a figura do Espantalho, da série de livros de Oz. No segundo livro – The Marvelous Land of Oz (L. Frank Baum) –, a dada altura, é necessário retirar a palha do Espantalho e espalhá-la, de modo a salvar alguns dos seus companheiros. Os pássaros que então os atacavam, no entanto, levam todos os fios de palha de que o Espantalho se compunha e nada sobra dele a não ser a sua cabeça. Perante isto, o Espantalho vê-se acabado, mas os seus amigos acabam por salvá-lo enchendo as suas roupas com outro material, que por acaso ali abundava naquela altura: dinheiro. Cheio (literalmente) de dinheiro, o Espantalho fica como novo e tem outra vez um corpo.
Há uma ironia óbvia a que podemos associar a troca da palha pelo dinheiro. "Palha" tem também o sentido de coisa inútil ou banal, sem valor – o oposto, portanto, do dinheiro. Mas ambos são coisas fungíveis: coisas susceptíveis de serem trocadas por outras semelhantes sem diminuição de valor. Uma moeda ou uma nota, tal como um fio de palha, não valem por serem objectos únicos, podendo ser trocados livremente por um exemplar similar. Todavia, o dinheiro, supostamente, é uma coisa com valor, ao contrário da palha. Esse valor é o de troca: o dinheiro é valioso porque pode ser trocado por coisas que queiramos. Assim, uma moeda pode ser livremente trocada por outra semelhante, porque ambas são igualmente valiosas. Um fardo de palha pode também ser livremente trocado por outro, mas pela razão oposta: são ambos desprovidos de valor. Por isso, a moeda pode também ser trocada por outras coisas, mas a palha não. A ironia vai então ainda mais longe: a palha – que, em teoria, não deveria poder ser trocada por outra coisa que não algo semelhante – é trocada por dinheiro – que é valioso precisamente por poder ser trocado por coisas que têm valor, i. e., é valioso precisamente por permitir adquirir coisas que não são "palha".
Mas há ainda um outro modo pelo qual, aparentemente, o Espantalho inverte o uso normal do dinheiro, pervertendo o seu valor: é mantendo o dinheiro (e não trocando-o por outros objectos) que este tem valor para ele. Ou seja, ele usa o dinheiro precisamente do modo inverso àquele a que ele estava destinado: o dinheiro só vale para ele se e enquanto ele não se separar dele. Um pouco como o Tio Patinhas, disposto a guardar para si toda a sua riqueza e gastando o menos possível.
Podemos, contudo, perguntar se haverá aqui uma verdadeira perversão do uso do dinheiro. À primeira vista, a resposta parece afirmativa: tanto o Espantalho como o Tio Patinhas parecem gostar do dinheiro, não como coisa com valor de troca (precisamente o tipo de valor que é suposto o dinheiro ter), mas sim como coisa com valor em si, como objecto (precisamente o valor que é suposto o dinheiro não ter). E estes personagens parecem ainda mais próximos se atentarmos no seguinte: o dinheiro mantém o Espantalho vivo, já que o preenche e lhe permite ter corpo, existir como espantalho. Mas a fixação pato(-)lógica do Tio Patinhas é assim mesmo: o caso do Espantalho não é mais que uma caricatura do modo como o Tio Patinhas vive através do dinheiro.
Olhando mais atentamente, porém, percebemos que o Espantalho não é exactamente como o Tio Patinhas. De facto, ele acaba mesmo por ser o seu inverso. O amor do Tio Patinhas pelo dinheiro faz deste uma coisa infungível: para ele, o dinheiro tem, naturalmente, valor como coisa que permite comprar coisas, pode ser trocado por outras coisas. Mas este carácter de moeda de troca é apenas o pressuposto para o verdadeiro afecto que ele lhe devota: ele gosta dele como coisa valiosa e, precisamente porque nele vê valor (e para isso tem de o ver como coisa susceptível de ser trocada), trata-o como coisa infungível, não o quer trocar por nada, quer mantê-lo.
Com o Espantalho passa-se o inverso: ele radicaliza a fungibilidade do dinheiro. Para ele, o dinheiro não é tão (ou não é de todo) valioso como coisa que permite comprar coisas, trocar, mas sim como objecto em si. Só que, por isso mesmo, para ele é igual ter palha ou dinheiro. Ou seja, enquanto para o Tio Patinhas o dinheiro pode ser trocado por coisas (o que lhe confere valor) e, por isso, ele não o quer trocar por nada, para o Espantalho, precisamente porque não lhe interessa trocar o dinheiro por outras coisas (nessa medida, o dinheiro é inútil, não tem valor) é que o dinheiro lhe interessa, tendo, portanto, valor como objecto, como coisa em si.
Tanto o Espantalho como o Tio Patinhas, em suma, gostam do objecto-dinheiro como coisa em si. Só o Espantalho, porém, tem um afecto desinteressado por este objecto, um afecto que não está dependente de as pessoas acharem que o dinheiro é valioso. Já o amor do Tio Patinhas só existe porque – e na medida em que – as outras pessoas também gostam de dinheiro.
Por outro lado, o desinteresse do Espantalho faz com que para ele seja indiferente ter dinheiro ou palha, enquanto o Tio Patinhas não abandonaria uma moeda por toda a palha deste mundo. Qual deles é afinal mais rico ou demonstra o amor mais verdadeiro não depende de nada a não ser o nosso ponto de vista.


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